am-se um ao outro com espadas almofadadas de
madeira, sob o olhar vigilante de Sor Rodrik Cassei, o mestre
de armas, um robusto homem em forma de barril, com
magníficas suíças brancas. Uma dúzia de espectadores,
homens e rapazes, os encorajavam, e, entre todas, a voz de
Robb era a mais forte. Arya reconheceu Theon Greyjoy ao
lado do irmão, de gibão negro ornamentado com a lula
gigante dourada de sua Casa, ostentando no rosto um ar de
retorcido desprezo. Ambos os combatentes cambaleavam.
Arya concluiu que já lutavam havia algum tempo.
- É um nadinha mais cansativo que o trabalho de agulhas -
observou Jon.
- É um nadinha mais divertido que o trabalho de agulhas -
Arya retorquiu. Jon sorriu, esticou o braço e despenteou-lhe
os cabelos. Arya corou. Sempre tinham sido próximos. Jon
tinha o rosto do pai, tal como ela. Eram os únicos. Robb,
Sansa, Bran e até o pequeno Rickon, todos saíram aos Tully,
com sorrisos fáceis e fogo nos cabelos. Quando pequena, Arya
tivera medo de isso querer dizer que também ela fosse
bastarda. Fora a Jon que contara o medo, e fora ele quem a
sossegara.
- Por que não está no pátio? - perguntou-lhe Arya.
Ele lhe deu um meio sorriso.
- Não se permite a bastardos danificar jovens príncipes -
disse. - Quaisquer hematomas que recebam no pátio de
treinos devem provir de espadas legítimas.
- Ah - Arya sentiu-se envergonhada. Devia ter compreendido.
Pela segunda vez naquele dia pensou que a vida não era justa.
Observou o irmão mais novo bater em Tommen.
- Podia sair-me tão bem como Bran - disse. - Ele tem só sete
anos, Eu tenho nove. Jon olhou-a com toda sua sabedoria de
catorze anos.
- Você é magra demais - disse. Pegou seu braço para apalpar o
músculo. Então suspirou e abanou a cabeça. - Duvido até que
conseguisse levantar uma espada, irmãzinha, quanto mais
brandi-la.
Arya recolheu o braço e lançou-lhe um olhar furioso. Jon
voltou a despentear-lhe os cabelos. Observaram Bran e
Tommen, que andavam em círculos ao redor um do outro.
- Vê o Príncipe Joffrey? - perguntou Jon.
Ao primeiro relance não o tinha visto, mas quando voltou a
olhar, descobriu-o atrás dos outros, à sombra do alto muro de
pedra. Estava rodeado por homens que não reconheceu,
jovens escudeiros com librés dos Lannister e dos Baratheon,
todos eles estranhos. Havia entre eles alguns homens mais
velhos; cavaleiros, presumiu.
- Olhe o brasão de sua capa - sugeriu Jon.
Arya olhou. Um escudo ornamentado tinha sido bordado na
capa almofadada do príncipe. Não havia dúvida de que o
bordado era magnífico. O brasão estava dividido ao meio: de
um lado tinha o veado coroado da Casa real; do outro, o leão
de Lannister.
- Os Lannister são orgulhosos - observou Jon. - Seria de se
pensar que a chancela real seria suficiente, mas não. Ele faz a
Casa da mãe igual em honra à do rei.
- A mulher também é importante! - protestou Arya. Jon
soltou um risinho.
- Talvez devesse fazer o mesmo, irmãzinha. Casa Tully e
Stark no seu brasão.
- Um lobo com um peixe na boca? - a idéia a fez rir. -
Pareceria disparatado, Além disso, se uma moça não pode
lutar, por que haveria de ter um brasão de armas?
Jon encolheu os ombros.
- Às moças dão as armas, mas não as espadas. Aos bastardos
dão as espadas, mas não as armas, Não fui eu que fiz as
regras, irmãzinha.
Ouviu-se um grito no pátio, embaixo. Príncipe Tommen
rebolava na poeira, tentando sem sucesso pôr-se em pé. Todos
aqueles almofadados faziam-no assemelhar-se a uma
tartaruga virada de costas. Bran estava sobre ele, com a
espada de madeira erguida, pronto a bater-lhe de novo assim
que se levantasse. Os homens desataram a rir.
- Basta! - gritou Sor Rodrik. Ofereceu a mão ao príncipe e o
pôs de novo em pé. - Uma boa luta. Lew, Donnis, ajudem-nos
a tirar as armaduras - olhou em volta. - Príncipe Joffrey,
Robb, querem mais um assalto?
Robb, já suado de uma luta anterior, avançou com ardor.
- De bom grado,
Joffrey saiu para o sol em resposta à chamada de Rodrik.
Seus cabelos brilharam como ouro tecido. Parecia aborrecido.
- Este é um jogo para crianças, Sor Rodrik.
Theon Greyjoy soltou uma súbita gargalhada.
- Vocês são crianças - disse, com ironia,
- Robb pode ser uma criança - disse Joffrey. - Eu sou um
príncipe. E já estou cansado de dar pancada nos Stark com
uma espada de brincar.
- Você levou mais pancada do que deu, Joff - disse Robb. -
Será que tem medo?
Príncipe Joffrey olhou para ele:
- Ah, estou apavorado - disse. - Você é tão mais velho - alguns
dos Lannister deram risada. Jon afastou os olhos da cena com
um olhar carrancudo.
-Joffrey é um verdadeiro merda - disse a Arya.
Sor Rodrik puxou, pensativo, pelas suíças brancas.
- O que sugere? - perguntou ao príncipe.
- Aço vivo.
- Feito - disparou Robb em resposta. - Vai se arrepender!
O mestre de armas pôs a mão no ombro de Robb, tentando
acalmá-lo.
- Aço vivo é demasiado perigoso. Permitirei espadas de
torneio, com gumes embotados.
Joffrey não disse nada, mas um homem que era estranho a
Arya, um cavaleiro alto com cabelos negros e cicatrizes de
queimaduras 